Chamado de “genocida” por opositores durante a pandemia, Jair Messias Bolsonaro volta ao centro do debate nacional após arquivamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) enfraquecerem acusações criminais feitas contra o ex-presidente em apurações ligadas à CPI da Covid.
O caso mais recente envolve decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, que arquivou uma notícia-crime apresentada contra Bolsonaro por suposta tentativa de interferir nos trabalhos da CPI da Covid. A decisão seguiu manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que não viu indícios dos crimes de corrupção ativa e advocacia administrativa na conversa entre Bolsonaro e o então senador Jorge Kajuru.
A notícia-crime havia sido apresentada por parlamentares do PSOL após a divulgação de uma conversa telefônica de 2021. No diálogo, Bolsonaro defendia que a CPI também investigasse governadores e prefeitos, e não apenas possíveis omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia. Para a PGR, segundo registro do UOL, o diálogo representava uma conversa informal e privada, sem oferta de vantagem que caracterizasse crime.
O arquivamento não apaga o debate político sobre a condução da pandemia, mas reforça a tese de aliados de Bolsonaro de que o ex-presidente foi alvo de condenação pública antecipada. Durante a crise sanitária, o termo “genocida” foi usado por opositores, movimentos políticos e críticos do governo. No campo jurídico, porém, essa classificação nunca foi reconhecida por decisão judicial contra Bolsonaro.
A própria CPI da Pandemia atribuiu nove crimes ao então presidente, entre eles prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva, incitação ao crime, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade. No entanto, o Senado registrou que as acusações de homicídio qualificado e genocídio contra indígenas foram retiradas do relatório final por falta de apoio e dúvidas sobre a caracterização das condutas.
Outro ponto central é o caso Covaxin, uma das frentes mais exploradas durante a CPI. A apuração investigava se Bolsonaro teria cometido prevaricação ao supostamente não agir diante de suspeitas relatadas sobre a compra da vacina indiana. A Polícia Federal concluiu que o então presidente não praticou crime de prevaricação.
Depois, a ministra Rosa Weber, do STF, acolheu novo pedido da PGR e determinou o arquivamento do Inquérito 4.875, que tratava da suposta prática de prevaricação no caso Covaxin. O pedido de arquivamento foi fundamentado na ausência de elementos suficientes para justificar o prosseguimento da investigação.
Em 2022, a PGR também pediu o arquivamento de sete das dez apurações preliminares abertas a partir das conclusões da CPI da Pandemia, o que foi contestado por senadores que integraram a comissão. Esse movimento reforçou a disputa política em torno do relatório final da CPI e da tentativa de responsabilização criminal de Bolsonaro pela condução da pandemia.
Na prática, PF, PGR e STF caminharam na mesma direção em apurações específicas: não houve comprovação suficiente para transformar acusações em responsabilização criminal contra Bolsonaro nesses pontos. Para aliados do ex-presidente, essa sequência fortalece a leitura de que parte das acusações feitas durante a pandemia teve peso político maior do que sustentação jurídica.
O debate também ganhou novo capítulo com os desdobramentos envolvendo Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos e uma das principais vozes globais da resposta sanitária à Covid-19.
Em julho de 2026, Fauci compareceu a uma audiência no Senado norte-americano conduzida pelo senador republicano Rand Paul e invocou a Quinta Emenda, recusando-se a responder a mais de cem perguntas sob o argumento constitucional de não produzir prova contra si. A audiência ocorreu após Paul divulgar 1.141 páginas de anotações de Fauci feitas durante a pandemia.
Rand Paul afirma que os diários enfraquecem a narrativa oficial sustentada por Fauci e por autoridades de saúde durante a pandemia. Segundo a Reuters, Paul acusa Fauci há anos de ter mentido ao Congresso sobre financiamento de pesquisas de vírus em Wuhan, na China, e de ter ajudado a encobrir discussões sobre a origem da Covid-19. Fauci nega as acusações e afirma ter prestado depoimentos verdadeiros ao Congresso.
A Associated Press registrou que Paul usou trechos do diário para sustentar que o “registro privado” de Fauci contaria uma história diferente daquela apresentada ao público. Entre os pontos explorados está uma entrada de janeiro de 2020 na qual Fauci anotou que os primeiros casos não estavam ligados diretamente ao mercado de Wuhan, mas que o local teria funcionado como amplificador da disseminação.
O tema da origem do vírus também passou a ser tratado de forma mais aberta por instituições internacionais. Em relatório publicado em 2025, a Organização Mundial da Saúde afirmou que todas as hipóteses sobre a origem da Covid-19 devem permanecer sobre a mesa, incluindo transmissão zoonótica e vazamento de laboratório. A OMS também informou que dados importantes solicitados à China ainda não foram compartilhados.
Nos Estados Unidos, a Casa Branca passou a sustentar publicamente a tese de vazamento laboratorial como explicação mais provável para a origem da Covid-19. A página oficial acusa Fauci de ter impulsionado a publicação “The Proximal Origin of SARS-CoV-2” para favorecer a narrativa de origem natural do vírus e cita falhas de transparência de autoridades sanitárias durante a pandemia.
Esse conjunto de fatos reacendeu a leitura política de que questionamentos feitos por Bolsonaro durante a pandemia, antes tratados por opositores como extremismo, negacionismo ou desinformação, passaram a ser reavaliados em investigações, audiências e documentos oficiais fora do Brasil.
A conexão feita por aliados do ex-presidente é direta: enquanto Bolsonaro era acusado politicamente de atuar contra a ciência e contra a vida, autoridades internacionais que conduziram a resposta sanitária global passaram a enfrentar questionamentos sobre origem do vírus, transparência, financiamento de pesquisas, medidas restritivas e contradições entre bastidores e discurso público.
O ponto central da matéria é que, nas apurações criminais específicas relacionadas à CPI da Covid, a tese de inocência de Jair Bolsonaro sai fortalecida por três frentes institucionais: o relatório da Polícia Federal, os pareceres da Procuradoria-Geral da República e os arquivamentos determinados no Supremo Tribunal Federal.
O que antes foi usado politicamente para sustentar a imagem de Bolsonaro como responsável criminal pela condução da pandemia não encontrou, nessas frentes, elementos suficientes para avançar contra o ex-presidente. Para aliados, esse conjunto confirma que Bolsonaro foi submetido a uma condenação pública antecipada, antes que os órgãos responsáveis concluíssem as apurações.
A palavra “genocida”, usada por opositores como arma política durante a pandemia, não se transformou em condenação judicial. Ao contrário: em pontos relevantes ligados à CPI da Covid, as apurações foram arquivadas ou perderam força por ausência de elementos criminais suficientes.
Para apoiadores, esse é o ponto central: Bolsonaro teria sido julgado antes do fim das apurações. Para críticos, os arquivamentos não eliminam questionamentos sobre falas, prioridades e decisões políticas do governo federal na pandemia.
O fato objetivo é que a palavra “genocida”, usada como arma política contra Bolsonaro, não se transformou em condenação judicial. Ao contrário, frentes relevantes de apuração ligadas à CPI da Covid foram arquivadas ou perderam força por ausência de elementos criminais suficientes.
Em meio à polarização nacional, os arquivamentos no STF, os pareceres da PGR, o relatório da Polícia Federal e as investigações envolvendo Anthony Fauci reforçam a leitura de aliados de Bolsonaro de que o ex-presidente foi injustiçado por uma narrativa política construída antes da conclusão das apurações.














